🌋 Açores: vulcões, lendas e história
Ilhas que cresceram na costura de três continentes, a lenda da Atlântida, um cavaleiro que aponta para oeste, vacas que derrotaram um exército espanhol e um vulcão por causa do qual meia ilha emigrou para a América – os Açores em cinco minutos de leitura.
Os Açores conhece-os toda a gente que vê a previsão do tempo, mesmo quem nunca lá foi. O anticiclone dos Açores é uma enorme zona de altas pressões sobre o Atlântico que decide por onde viajam as frentes de chuva a caminho da Europa. Quando se estende, chove menos em Portugal e em Espanha. Mas as ilhas lá por baixo são mais interessantes do que qualquer depressão.
As nove ilhas ficam no meio do oceano, a cerca de 1400 quilómetros de Portugal continental. Dividem-se em três grupos: o oriental, com São Miguel e Santa Maria; o central, com a Terceira, a Graciosa, São Jorge, o Pico e o Faial; e o ocidental, com as Flores e o Corvo.
Ilhas na costura de três continentes
Debaixo dos Açores encontram-se três placas litosféricas: a norte-americana, a euro-asiática e a africana. Pelo fundo do Atlântico, de norte a sul, estende-se a Crista Médio-Atlântica, o sítio onde as placas se afastam e o magma sobe do interior da Terra. A crista passa mesmo pelo meio do arquipélago. Por isso as Flores e o Corvo estão na placa norte-americana, enquanto as outras sete ilhas ficam do lado da Europa e de África. Entre a placa euro-asiática e a africana estende-se ainda outra fenda, muito lenta, chamada Rifte da Terceira.
Onde a crusta se rasga, sobe o magma. Após milhões de anos de erupções no fundo do oceano, cresceram vulcões tão altos que os cumes emergiram. Cada ilha açoriana é apenas a ponta de uma montanha gigante cuja maior parte continua debaixo de água. Os geólogos ainda discutem se debaixo do arquipélago sobe também uma pluma quente do manto, como debaixo da Islândia ou do Havai, ou se o afastamento das placas basta para explicar tudo.
As ilhas não nasceram todas ao mesmo tempo. A mais antiga é Santa Maria, cujas rochas mais antigas acima do nível do mar têm mais de oito milhões de anos. É a única que tem à superfície também rochas sedimentares – calcários e arenitos cheios de conchas fósseis, ouriços-do-mar e dentes de tubarão. Ao longo da sua longa história, a ilha afundou-se no mar e voltou a emergir.
A mais jovem é o Pico, com apenas cerca de trezentos mil anos. Na ilha ergue-se a montanha do Pico, com 2351 metros, o ponto mais alto de todo Portugal. A última erupção foi em Dezembro de 1720. Nos seus campos de lava negra, a vinha cresce em centenas de pequenos currais de muros de pedra solta que a protegem do vento – a paisagem da cultura da vinha do Pico é Património Mundial da UNESCO desde 2004.
Aqui os vulcões não são coisa do passado. Em Setembro de 1957 começou ao largo do Faial a erupção submarina dos Capelinhos. Durou treze meses, e do mar surgiu terra nova, com cerca de dois quilómetros quadrados e meio, que se juntou à ilha. A erupção mais recente da região deu-se entre 1998 e 2001 ao largo da Terceira, a centenas de metros de profundidade – e durante meses apareceram no mar blocos flutuantes de lava quente, ocos por dentro como balões.
Lendas de ilhas que aqui estiveram antes
Um lugar tão extraordinário tinha de atrair lendas. A mais famosa é a da Atlântida. Em 1882, o político norte-americano Ignatius Donnelly escreveu um livro segundo o qual os Açores são os cumes das montanhas do continente-ilha submerso de que falou Platão. O livro vendeu-se muitíssimo bem e a ideia continua viva. Mas é só uma lenda: a geologia mostra que os Açores não são restos de uma terra afundada, mas vulcões jovens que, pelo contrário, nasceram do oceano.
A segunda lenda fala de sete bispos. Quando os mouros invadiram a Península Ibérica em 711, sete bispos teriam fugido com os seus fiéis para oeste, através do oceano, fundado sete cidades numa ilha e queimado os navios para que ninguém pudesse voltar. A Ilha das Sete Cidades foi depois desenhada nos mapas durante séculos, embora nunca ninguém a tenha encontrado. O nome Sete Cidades continua a ser o de uma cratera em São Miguel – mas nunca lá existiram sete cidades.
A terceira é a mais misteriosa. No século dezasseis, o cronista Damião de Góis descreveu que os primeiros navegadores encontraram na ilha do Corvo uma estátua equestre de pedra: um cavaleiro que estendia o braço e apontava com o dedo para oeste, para a América. No pedestal haveria inscrições numa escrita desconhecida. Mas a estátua não chegou aos nossos dias e nada prova que tenha existido. O mais provável é que fosse uma formação rochosa parecida com um cavaleiro, ou apenas uma história. No Corvo continua a fazer parte do folclore local.
Açores que eram milhafres
A descoberta verdadeira é menos misteriosa. As ilhas de Santa Maria e São Miguel foram registadas por volta de 1427 pelo navegador português Diogo de Silves, e o povoamento começou na década de 1430. As mais ocidentais, as Flores e o Corvo, só foram descobertas em 1452, por Diogo de Teive. Os povoadores vieram sobretudo do sul de Portugal, mas também da Flandres e do norte de França.
Ninguém sabe ao certo de onde vem o nome. A explicação mais conhecida diz que os navegadores viram aves de rapina a voar em círculos sobre as ilhas e as tomaram por açores. Só que os açores não vivem aqui. Já no século dezasseis o cronista Gaspar Frutuoso fazia notar que as aves sobre as ilhas são, na verdade, os milhafres da terra – a subespécie local da águia-d'asa-redonda. Por isso outros historiadores derivam o nome do italiano *azzurro*, azul, por causa das chamadas Ilhas Azuis dos mapas antigos.
Quando as vacas derrotaram um exército
Em 1580 a coroa portuguesa passou para o rei Filipe II de Espanha. A ilha Terceira recusou-se a reconhecê-lo e manteve-se fiel a um pretendente rival. Em Julho de 1581 desembarcou na baía da Salga um exército espanhol – e, segundo os relatos da época, os defensores lançaram contra ele centenas de cabeças de gado bravo. As vacas e os touros tresmalhados irromperam entre os soldados e ajudaram a derrotar os atacantes. A Terceira só se rendeu dois anos depois, mas os touros chegaram até ao brasão dos Açores.
Baleias, um vulcão e a América
Durante séculos, os açorianos viveram do mar. Nas arribas havia vigias que procuravam cachalotes, e os homens iam atrás deles a remos, em botes abertos, com arpões de mão. O último cachalote foi caçado aqui em 1987. Hoje vai-se ter com as baleias apenas de máquina fotográfica.
A erupção dos Capelinhos teve também um efeito inesperado do outro lado do oceano. Muitas famílias do Faial perderam casas e terras, e por isso em 1958 o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei especial que permitiu aos açorianos afectados mudarem-se para os Estados Unidos. Um dos seus co-proponentes foi um jovem senador, John F. Kennedy. A lei desencadeou uma grande vaga de emigração, e as comunidades açorianas do Massachusetts e da Califórnia continuam fortes até hoje.
Os Açores hoje
Desde 1976 os Açores são uma região autónoma de Portugal, com parlamento e governo próprios. Têm três capitais: o governo está em Ponta Delgada, em São Miguel; o parlamento, na Horta, no Faial; e os tribunais e o bispo, em Angra do Heroísmo, na Terceira, cujo centro histórico está na lista da UNESCO desde 1983. No censo de 2021 viviam aqui pouco menos de 237 mil pessoas.
E ainda uma coisa que surpreende quem cá chega no Verão. As hortênsias azuis e cor-de-rosa que ladeiam estradas e pastagens e se tornaram símbolo das ilhas não são açorianas. Foram trazidas do Japão como planta ornamental e deram-se tão bem que se espalharam pela natureza e hoje afastam as plantas nativas. Também isto são os Açores: um sítio onde até o mais típico pode ter vindo do outro lado do mundo.