🧡 Bryce Canyon: o que lá encontras
Não é um desfiladeiro, são muralhas de figuras de pedra, e há mais aqui do que em qualquer outro sítio do mundo — e um céu onde se vêem sete mil e quinhentas estrelas. Cinco minutos de leitura.
Primeiro uma correcção: Bryce Canyon não é um desfiladeiro. Um desfiladeiro é escavado por um rio que passa por ele. Aqui não há rio nem nunca houve.
O que há na verdade é uma série de anfiteatros enormes comidos na borda de um planalto. A água aqui não corre ao comprido, mas de cima para baixo — e com ela recua toda a borda do planalto, cerca de meio metro por século.
Hoodoos
Essas torres de pedra chamam-se hoodoos. Bryce tem mais delas do que qualquer outro lugar da Terra.
Nascem do gelo. A uma altitude de cerca de 2 500 metros a água aqui derrete e gela mais de duzentas vezes por ano — e ao fazê-lo aumenta de volume nove por cento. Entra numa fenda, gela, abre a fenda. Isto repete-se mais de duzentas vezes por ano.
Primeiro esboroam-se da borda do planalto paredes verticais, depois abrem-se janelas nas paredes, as janelas alargam-se e ficam colunas. E como a rocha é estratificada e algumas camadas são mais duras, formam-se nas colunas cabeças, narizes e chapéus. Daí as figuras.
A mais conhecida chama-se martelo de Thor: uma coluna estreita com um bloco angular em cima que manifestamente não pode ficar ali, e fica na mesma.
A cor vem do ferro. O laranja e o vermelho são óxidos de ferro; as faixas brancas e cor-de-rosa são camadas de outra composição. Ao nascer do sol, quando os raios chegam de lado e ressaltam entre as colunas, ficam durante uma hora tão intensos que as fotografias parecem tratadas.
Por onde andar
Da borda só se pode olhar — e Sunrise Point, Sunset Point e Bryce Point valem a pena mesmo assim. Mas o principal é descer por entre elas.
A melhor combinação é o Queen's Garden a descer e o Navajo Loop a subir, ao todo pouco menos de cinco quilómetros. Faz parte do Navajo Loop uma passagem chamada Wall Street: uma fenda entre duas paredes de cem metros onde crescem dois pseudotsugas, porque se esticaram atrás da luz.
Atenção à altitude. A borda do planalto está entre 2 400 e 2 700 metros, e o caminho de volta acima é todo a subir em ar rarefeito. Descer é divertimento, subir é trabalho.
E quanto ao tempo: no Inverno há aqui neve e essa é de longe a melhor altura. Colunas laranja com barretes brancos é o mais forte que há em fotografia em todo o Utah, e em Janeiro quase não está lá ninguém.
Céu escuro
Bryce é um dos sítios mais escuros dos Estados Unidos. Não há cidade grande em centenas de quilómetros e o planalto é alto, portanto há menos ar por cima.
Numa noite sem lua vêem-se daqui a olho nu cerca de sete mil e quinhentas estrelas. Numa cidade da Europa central verás duzentas, se tiveres sorte. Os guardas organizam aqui programas nocturnos com telescópios e no Verão um festival de astronomia inteiro.
Árvores que aqui estavam antes de tudo o resto
Nas bordas crescem pinheiros-de-cones-espinhosos. É um dos organismos que mais tempo vivem no mundo: os daqui têm cerca de mil e seiscentos anos, e os exemplares mais velhos conhecidos, na Califórnia, passam dos quatro mil.
Reconhecem-se com facilidade — parecem meio mortos, porque em boa parte estão. A árvore vai cortando o abastecimento aos ramos que não compensam e deixa viva apenas uma faixa de casca. É justamente por isso que aguenta onde mais nada cresce.
De onde vem o nome
Em 1875 a igreja mórmon mandou para cá um carpinteiro chamado Ebenezer Bryce para trabalhar a terra. Construiu uma casa por baixo do anfiteatro e a gente das redondezas começou a chamar àquela garganta o desfiladeiro do Bryce.
Bryce deixou uma frase que no parque ainda se cita. Perguntado o que achava do lugar, terá respondido que era um sítio danado para perder uma vaca.
Muito mais antiga é a explicação dos paiute que aqui viviam antes dele: os hoodoos são a Gente da Lenda, que o Coiote transformou em pedra pelo que fizeram. As cores nas rochas seriam, segundo isso, restos da sua pintura de guerra.
Prático
O parque é pequeno — a estrada principal tem vinte e nove quilómetros e não tem saída, portanto vai-se e volta-se. No Verão há um transporte gratuito e vale a pena, porque nos miradouros não se estaciona.
Vêm por ano cerca de dois milhões e meio de pessoas, o que é muito para um território tão pequeno. A maioria está no Sunset Point entre as dez e as duas. Quem desce, ou chega às seis da manhã, tem aquilo quase só para si.