Guide22

🐻 História de Berlim

Do pântano ao cabaré e aos escombros, até uma capital pobre mas sexy — oitocentos anos de uma cidade em cinco minutos.

Berlim não tem catedral do século XIII nem uma rua que ninguém tenha reconstruído. Tem outra coisa: é a única capital europeia que, no espaço de um século, conseguiu ser capital de um império, de uma república, de uma ditadura, de dois Estados inimigos ao mesmo tempo e, por fim, outra vez de um só país.

Pagou esse feito ficando quase sem nada no sítio original.

O pântano que lhe dá o nome

O nome Berlim não tem nada a ver com o urso, ainda que a cidade o traga no brasão e os turistas se fotografem ao lado dele. Vem muito provavelmente de uma raiz eslava para pântano — e quem alguma vez tenha cavado alicerces na areia berlinense dar-lhe-á razão.

Havia aqui originalmente duas povoações nas duas margens do Spree: Cölln, mencionada pela primeira vez em 1237, e Berlim sete anos depois. Viviam do peixe, do cereal e da portagem do vau. Só se juntaram no século XV e ainda muito depois isto era um buraco de província que ninguém na Europa sabia encontrar no mapa.

Os Hohenzollern escolhem a areia

Em 1415 o Brandemburgo passou para os Hohenzollern, que se mantiveram no poder quinhentos anos, até 1918. Era um domínio assente na pior terra da Alemanha, por isso teve de apostar na única coisa que cresce na areia: um exército e uma burocracia.

Em 1701 o príncipe eleitor de Brandemburgo mandou coroar-se rei. Não rei da Prússia, a isso não tinha direito — apenas rei na Prússia, um jogo de pernas diplomático inventado para que o imperador em Viena não o pudesse proibir.

Frederico, que tocava flauta

Frederico II subiu ao trono em 1740 e logo no primeiro ano tomou a Silésia, porque lhe convinha. Passou o resto da vida a defender o que tinha tirado — e nos tempos livres escrevia versos em francês, tocava flauta transversal e convidava Voltaire, até os dois se zangarem.

Com ele Berlim ganhou uma ópera, uma academia e o hábito de construir por planta e depressa.

Uma capital que se tornou apertada

Em 1871 Berlim tornou-se capital da Alemanha unificada e começou a crescer a um ritmo sem paralelo na Europa. Ergueram-se bairros inteiros de prédios de renda, chamados Mietskasernen, quartéis de aluguer: pátio atrás de pátio, o último tão escuro que nele não crescia nada.

Em 1920 a cidade engoliu com uma só lei oito cidades vizinhas e mais de setenta freguesias. De um dia para o outro tinha quase quatro milhões de habitantes e era a segunda maior cidade da Europa depois de Londres.

Os anos vinte, em que não se dormia

A república era pobre, a moeda não valia nada e Berlim divertia-se como se isso não importasse. Cabarés, clubes, os estúdios de cinema de Babelsberg, Einstein na universidade, Brecht no teatro e mais de cem jornais ao mesmo tempo.

Ficou para esse tempo o nome de anos vinte dourados, embora na verdade tenha durado mal seis anos — da estabilização do marco em 1924 ao crash da bolsa de Nova Iorque em 1929.

Doze anos e montanhas de entulho

Em 1933 acabou tudo de uma vez. Berlim tornou-se capital de um regime que queria construir aqui uma metrópole chamada Germânia. Dela chegaram a fazer-se uns quantos edifícios e imensos planos.

O resto saiu ao contrário. No fim da guerra cerca de quarenta por cento da cidade estava em ruínas. Foram mulheres a limpá-las, porque homens não havia; chamaram-lhes Trümmerfrauen e levaram o entulho aos baldes. O que não se conseguia transportar foi amontoado — e um desses montes é hoje a colina mais alta de Berlim.

Uma cidade cortada ao meio

Os vencedores dividiram Berlim em quatro setores e em 1948 Estaline tentou esfomear os ocidentais: fechou as estradas e o caminho de ferro. O Ocidente respondeu com uma ponte aérea que durante quase um ano abasteceu dois milhões de pessoas pelo ar. Nos melhores dias aterrava um avião a cada minuto e meio.

O muro apareceu na noite de 13 de agosto de 1961 e ficou de pé vinte e oito anos. Não separava a Alemanha da Alemanha — dava a volta a todo o Berlim Ocidental, que assim era uma ilha no meio de um Estado estrangeiro. Media mais de cento e cinquenta quilómetros.

Pobre mas sexy

A 9 de novembro de 1989 o muro abriu-se por causa de uma conferência de imprensa, quando Günter Schabowski anunciou de forma pouco clara novas regras e respondeu que entravam em vigor imediatamente — depois disso já nada se podia facilmente recuar. Um ano mais tarde a Alemanha era outra vez uma, e em 1991 Berlim recuperou o estatuto de capital numa votação renhida: 338 votos contra 320.

Começou uma das maiores obras da Europa do pós-guerra: a Potsdamer Platz, onde até então havia um descampado, o governo, a estação. O dinheiro, esse, não veio. Berlim continua a ser a única capital europeia mais pobre do que a maioria das regiões do seu próprio país, e em 2003 o presidente da câmara resumiu-o em palavras que se tornaram slogan turístico: pobre mas sexy.