🦅 História dos EUA
Do erro de Colombo ao Silicon Valley: quinhentos anos em vinte minutos de leitura.
Imagina um país onde uma vez se fez chá diretamente no oceano, onde os presidentes levavam documentos de Estado importantes dentro do chapéu para não os perderem, e onde um dia as pessoas simplesmente decidiram que estavam fartas de obedecer a um rei que nunca tinham visto e que estava a milhares de quilómetros, do outro lado de um charco muito grande. Bem-vindo à América!
Hoje vamos fazer uma viagem longa, selvagem e por vezes completamente inacreditável pela história dos Estados Unidos. Esquece as listas maçadoras de datas que dão tonturas. Vamos ver como foi na verdade — com todas as trapalhadas, as ideias geniais e as viragens brutais que moldaram esta superpotência. Aperta o cinto: começamos há cerca de quinhentos anos.
Capítulo 1: O grande erro geográfico, ou como Colombo (não) descobriu a América
Corre o ano de 1492. Na Europa, o que está na moda é a pimenta, a canela e a seda da Ásia. O problema é que as rotas terrestres para o Oriente são perigosas e caras. O navegador italiano Cristóvão Colombo consegue dinheiro da rainha de Espanha para um plano maluco: «Se a Terra é redonda, chego à Índia navegando sempre para oeste!» Era um plano excelente, com um pequeno defeito. Colombo não fazia ideia de que lhe estava no caminho um continente enorme e por cartografar.
Quando a tripulação avistou finalmente terra, depois de semanas no mar (uma ilha das Caraíbas), Colombo desembarcou solenemente e proclamou: «Estamos na Índia!» Foi por isso que começou a chamar índios aos habitantes locais. E embora não tenha encontrado ali uma única plantação de pimenta, até à sua morte, em 1506, esteve firmemente convencido de que tinha chegado à Ásia. Que se tratava de um «Novo Mundo» inteiro percebeu-o outro navegador, Américo Vespúcio. E como Américo escrevia um pouco melhor as cartas sobre as suas viagens, o novo continente acabou por ficar com o nome dele — América. A Cristóvão sobraram a Colômbia e uns quantos nomes de cidades.
É verdade também que Colombo esteve longe de ser o primeiro europeu na América. Já por volta do ano 1000 os viquingues lá tinham chegado nos seus barcos de madeira, comandados por Leif Eriksson. Viveram lá um tempo, andaram à pancada com os locais e voltaram a partir sem o contarem a ninguém na Europa. E claro que não podemos esquecer os próprios povos indígenas. Estavam lá havia milénios, tinham construído cidades notáveis e não tinham a mínima sensação de precisarem de ser «descobertos» por um italiano baralhado com uma bússola.
Capítulo 2: Peregrinos, milho e o primeiro Dia de Ação de Graças
Assim que se soube na Europa que na América havia muita terra livre (a quem já lá vivia ninguém perguntou nada), as potências europeias começaram a acorrer — espanhóis, franceses, neerlandeses e sobretudo ingleses. A Inglaterra fundou na costa leste treze colónias, uma a seguir à outra.
Um dos grupos de colonos mais famosos foram os Peregrinos. Eram pessoas a quem não agradava o modo como se praticava a religião em Inglaterra e que queriam viver à sua maneira. Em 1620 embarcaram num navio chamado Mayflower e atravessaram um Atlântico revolto. A travessia foi horrível, toda a gente vomitava, o navio metia água, mas acabaram por chegar à costa do atual Massachusetts, onde fundaram a colónia de Plymouth.
Só que a altura não podia ter sido pior. Chegaram no início do inverno. Não tinham casas decentes, as provisões acabavam e rebentaram as doenças. No primeiro inverno morreu metade dos Peregrinos. Quando já parecia que a colónia não sobreviveria, apareceram os wampanoag. Um deles, Squanto, falava inglês, surpreendentemente (anos antes tinha sido raptado por marinheiros ingleses, portanto o mundo é mesmo pequeno). Squanto e os seus ensinaram aos Peregrinos aquilo que lhes salvou a pele: como cultivar o milho americano, onde pescar e como transformar o peixe em adubo.
Quando, no outono de 1621, os Peregrinos recolheram a sua primeira colheita a sério, decidiram organizar uma festa enorme de três dias para agradecer a Deus e aos wampanoag por os terem salvado. Assaram-se perus selvagens e comeu-se abóbora, peixe e carne de veado. Foi assim que nasceu o famoso Dia de Ação de Graças (Thanksgiving), hoje nos EUA talvez mais popular do que o Natal.
E mais uma história a respeito desse peru. Costuma dizer-se que Benjamin Franklin queria o peru como ave nacional em vez da águia. Na realidade nunca o propôs oficialmente e ninguém o venceu em votação: escreveu-o numa carta privada à filha, a gozar com o facto de a águia do projeto do selo nacional parecer mais um peru. Aproveitou, isso sim, para acrescentar que a águia é uma ladra preguiçosa que rouba o peixe a outras aves, ao passo que o peru é um pouco vaidoso mas corajoso. No fim ganhou a águia, e o peru acaba no forno todos os novembros.
Capítulo 3: O motim do chá de Boston, ou quando um rei aperta demasiado
Passaram mais cento e cinquenta anos. Os colonos tinham-se tornado americanos orgulhosos. Viviam bastante bem, cultivavam tabaco e algodão, comerciavam, e no fundo não precisavam de um rei britânico sentado em Londres. Só que o rei Jorge III tinha problemas de dinheiro. Travara uma guerra longa e cara contra os franceses (que, já agora, também decorreu na América) e o cofre estava vazio.
O rei teve uma ideia «brilhante»: «Que sejam os americanos a pagar essas guerras! Vamos lançar-lhes impostos novos!» E assim Londres taxou nas colónias quase tudo — papéis oficiais, jornais, tinta, vidro e sobretudo chá. Os americanos ficaram furiosos. Não era tanto pelos poucos pence a mais, mas pelo princípio. No parlamento britânico não estava sentado um único representante da América. Nasceu daí a célebre palavra de ordem: «Nenhum imposto sem representação!» (Ou seja: se não podemos opinar sobre como somos governados, não vos pagamos impostos.)
A tensão rebentou a 16 de dezembro de 1773 em Boston. Entraram no porto três navios britânicos carregados de chá caro. Uns patriotas locais que se intitulavam Filhos da Liberdade optaram por uma ação radical. Disfarçaram-se (com pouco jeito) de índios, abordaram os navios de noite, rebentaram à machadada 342 caixotes enormes de chá e atiraram tudo ao mar. Afogaram ao todo mais de quarenta toneladas de chá, o que hoje valeria milhões. O episódio ainda se chama Boston Tea Party. Os peixes da baía de Boston terão levado um choque de cafeína — e o rei Jorge III mandou um exército para a América pacificar os rebeldes. A guerra estava à porta.
Capítulo 4: O nascimento de uma superpotência
A Guerra da Independência começou em 1775. De um lado estava o exército britânico: soldados profissionais de casacas de um vermelho vivo (chamavam-lhes casacas vermelhas), os mais bem treinados do mundo. Do outro estavam os americanos: agricultores, caçadores e carpinteiros que muitas vezes não tinham sequer botas decentes, quanto mais fardas. À frente deste exército amador pôs-se George Washington.
Sobre Washington correm muitos mitos. Por exemplo, o de que tinha dentes postiços de madeira. Na verdade sofria de dores de dentes terríveis e no fim da vida restava-lhe um único incisivo seu. Mas a prótese não era de madeira: era talhada em marfim de hipopótamo e osso de vaca — e levava também dentes humanos, vários deles comprados a pessoas que ele próprio escravizava. Devia ser extremamente incómoda, o que explica que George não sorria em nenhum retrato.
Enquanto Washington lutava na lama e no gelo, reuniram-se na Filadélfia as cabeças mais brilhantes da América (entre elas Thomas Jefferson e Benjamin Franklin). Sentaram-se a uma mesa e no verão de 1776 redigiram e aprovaram a Declaração de Independência. Nela anunciavam ao mundo que as treze colónias já não pertenciam à Grã-Bretanha, mas fundavam um país novo: os Estados Unidos da América. O dia em que a aprovaram é celebrado pelos americanos como a sua maior festa, com toneladas de fogo de artifício e churrasco — e essa data encontra-la gravada na tábua que certa senhora verde segura no porto de Nova Iorque.
Ganhar a guerra levou ainda vários anos. No fim, os franceses ajudaram bastante os americanos: detestavam sinceramente os britânicos e gostavam de lhes fazer a vida negra. Em 1783 os britânicos reconheceram a derrota e a América ficou livre. George Washington foi eleito primeiro presidente e era tão popular que podia ter-se feito rei, se quisesse. Recusou, porque de reis os americanos estavam cheios. Ao fim de oito anos no cargo voltou por vontade própria para a lavoura, fundando assim a tradição de que um presidente governa no máximo dois mandatos.
Capítulo 5: Como um país pequeno se tornou gigante (e como os povos indígenas sofreram com isso)
No início os Estados Unidos eram apenas uma faixa estreita de terra junto ao Atlântico. Mas os americanos tinham muita fome de terra nova e começou uma migração maciça para oeste. E como é que obtiveram essa terra? Às vezes simplesmente compraram-na por tuta e meia. Em 1803, por exemplo, compraram ao imperador francês Napoleão um território enorme chamado Luisiana. Napoleão precisava urgentemente de dinheiro para as suas guerras na Europa, e por isso vendeu à América um pedaço de terra que duplicava o tamanho do país de então, por meros quinze milhões de dólares. Foi o melhor negócio imobiliário da história.
Mais tarde compraram o Alasca à Rússia. Na altura toda a gente achou que o secretário Seward tinha enlouquecido ao gastar mais de sete milhões de dólares num «frigorífico gigante cheio de ursos». Depois encontrou-se ouro e petróleo no Alasca, e os críticos calaram-se.
O lado triste e sombrio deste crescimento foi o destino dos povos indígenas. O governo americano assinava tratados com as tribos e violava-os sem parar, à medida que os colonos brancos empurravam para oeste. Em 1830 o presidente Andrew Jackson assinou a lei de remoção dos índios. Dezenas de milhares de pessoas de nações como os cherokee tiveram de deixar as suas casas e caminhar milhares de quilómetros até reservas secas no Oklahoma. A esse caminho chama-se o Trilho das Lágrimas, porque durante ele morreram milhares de fome, frio e exaustão.
Capítulo 6: O Norte contra o Sul, ou Lincoln e o seu arquivador ambulante
Por volta de 1860 a América tinha um problema interno enorme que quase a destruiu. O país estava economicamente dividido em dois. O Norte era moderno, cheio de fábricas, caminhos de ferro e cidades. A escravatura era lá proibida. O Sul era agrícola: plantações imensas de algodão e tabaco onde trabalhavam em condições desumanas milhões de pessoas negras escravizadas e trazidas de África. Os sulistas diziam que sem escravos a sua economia iria abaixo.
Em 1860 ganhou as eleições presidenciais Abraham Lincoln. Lincoln era um homem incrível. Nascido numa cabana de troncos pobre, aprendeu a ler sozinho e tornou-se advogado. Media quase dois metros e usava uma cartola alta que se tornou icónica. Aquele chapéu não era só enfeite: Lincoln guardava lá dentro cartas importantes, apontamentos e documentos de Estado. Se ia na rua e encontrava alguém importante, tirava simplesmente o chapéu, remexia e puxava de lá o papel preciso. O primeiro arquivador portátil.
Lincoln não escondia que considerava a escravatura um mal moral. Os estados do sul tiveram medo de que lhes tirasse os escravos e anunciaram que saíam dos Estados Unidos para fundar o seu próprio país, a Confederação. Lincoln declarou que o país não podia desfazer-se, e rebentou a Guerra Civil Americana, o conflito mais sangrento em solo americano.
Ao princípio ganhava o Sul, porque tinha melhores generais (o famoso Robert E. Lee, entre outros). Mas o Norte tinha mais dinheiro, mais gente e sobretudo fábricas de armas. Em 1863 Lincoln emitiu uma proclamação que libertava todos os escravos do Sul. Milhares de soldados negros entraram então na guerra e lutaram pela sua própria liberdade. Em julho de 1863 a enorme batalha de Gettysburg virou definitivamente o conflito. Em 1865 o Sul capitulou. A escravatura foi abolida, os Estados Unidos ficaram inteiros, mas poucos dias depois uma tragédia atingiu o país: Lincoln foi morto a tiro num teatro de Washington por um ator sulista fanático, John Wilkes Booth.
Capítulo 7: O Oeste selvagem, a febre do ouro e as histórias de saloon
Depois da Guerra Civil veio a época que conheces dos filmes — o Oeste selvagem. Por todo o lado andavam cowboys, xerifes e bandidos como Billy the Kid ou Jesse James, e construiu-se uma linha transcontinental que ligou finalmente as duas costas.
Porque é que as pessoas se atiravam para aquele oeste perigoso? Muitas vezes por causa do ouro. Em 1848 um carpinteiro encontrou num ribeiro da Califórnia umas pedrinhas amarelas e brilhantes. A notícia correu e em 1849 rebentou a primeira grande febre do ouro. Milhares de pessoas — pelo ano ficaram conhecidas como os Forty-Niners — largaram os empregos, venderam as casas e correram para a Califórnia na esperança de enriquecer. A maioria, claro, não encontrou nada e acabou na pobreza; quem realmente ganhou dinheiro foram os que lhes vendiam pás, comida e bebida cara nos saloons. A propósito, foi precisamente então que um tal Levi Strauss começou a coser para os garimpeiros umas calças duríssimas de lona com rebites de metal — e assim vieram ao mundo as primeiras jeans, muito possivelmente as que trazes vestidas enquanto lês isto.
Os cowboys não eram, na verdade, heróis românticos que passavam o dia a sacar do revólver. Era um trabalho terrivelmente duro e sujo. A sua principal tarefa era conduzir manadas enormes de vacas por centenas de quilómetros de pradaria até ao cais de carga mais próximo. Levava meses, dormiam no chão a céu aberto, comiam feijão vezes sem conta, e o maior perigo não eram os tiroteios, mas uma manada em debandada que os podia pisar.
Capítulo 8: A era das invenções e dos arranha-céus
Na viragem para o século XX, a América transformou-se num foguetão industrial. As pessoas mudavam-se do campo para as cidades e entravam no país milhões de imigrantes vindos da Europa (muitos checos entre eles) à procura do seu «sonho americano». Quando os navios de emigrantes entravam no porto de Nova Iorque, a primeira coisa que os recebia era uma estátua verde enorme, presente da França aos EUA.
Foi uma era de cérebros geniais. Thomas Alva Edison, nos seus laboratórios de Nova Jérsia, aperfeiçoou a lâmpada, inventou o fonógrafo e muito mais. Conta-se que, antes de descobrir que material pôr numa lâmpada para não arder logo, experimentou milhares de becos sem saída (incluindo a barba chamuscada do assistente). Quando lhe perguntaram se aqueles milhares de insucessos não o tinham desanimado, respondeu: «Não foram insucessos. Descobri simplesmente, com êxito, dez mil maneiras que não funcionam.»
Outro homem que mudou o mundo foi Henry Ford. Não inventou o automóvel nem a linha de montagem — as linhas móveis já se usavam nos matadouros de Chicago, de onde ele foi buscar a ideia. O que inventou foi usá-las para construir carros. Até então os automóveis faziam-se à mão e eram tão caros que só os milionários lhes chegavam. Ford pôs os operários junto a uma linha onde cada um fazia o dia inteiro um único gesto (apertar um parafuso, por exemplo). A produção do seu famoso Modelo T ficou tão rápida e barata que qualquer americano vulgar podia comprar um. Ford tinha um sentido próprio do marketing e dizia: «Pode ter um carro de qualquer cor, desde que seja preto.» (O preto secava mais depressa e por isso não atrasava a linha.)
Como no centro das grandes cidades havia pouco espaço e os terrenos custavam uma fortuna, os arquitetos tiveram uma ideia: «Se não podemos construir em largura, construímos para o céu!» Graças ao elevador seguro e ao aço barato começaram a crescer os primeiros arranha-céus. A América começou a parecer saída do futuro.
Capítulo 9: As guerras mundiais e a era dos gangsters com Al Capone
Quando a Primeira Guerra Mundial rebentou na Europa em 1914, a América disse a princípio: «O problema é vosso, nós não nos metemos.» Mas os submarinos alemães começaram a afundar navios mercantes americanos, e assim em 1917 os EUA entraram na guerra e ajudaram a terminá-la depressa.
Depois da guerra vieram os loucos anos vinte. As pessoas queriam dançar jazz e divertir-se. O governo, porém, cometeu um erro e aprovou a lei seca — proibição total da venda e do fabrico de álcool. Julgavam que assim curariam a criminalidade. O resultado foi exatamente o contrário. As pessoas não deixaram de beber; a bebida passou apenas a ser feita às escondidas em destilarias ilegais e contrabandeada. Nesse mercado negro os gangsters enriqueceram fabulosamente. O mais famoso foi Al Capone, em Chicago. Tinha um exército privado com metralhadoras, subornava a polícia e os políticos e livrava-se da concorrência. A polícia não lhe chegava porque ninguém queria testemunhar. No fim apanharam-no não por homicídio, mas por não pagar impostos sobre os lucros ilegais. Acabou na famosa prisão de Alcatraz.
Em 1929 a festa acabou. Rebentou uma bolha enorme na bolsa de Nova Iorque, as ações perderam valor e começou a Grande Depressão. As pessoas perderam as poupanças, as fábricas fecharam e milhões faziam filas intermináveis por uma sopa grátis. Da crise foi o presidente Franklin D. Roosevelt que tirou a América, com o seu programa New Deal, no âmbito do qual o Estado empregou milhões de pessoas a construir barragens, estradas e pontes.
Roosevelt foi, aliás, o único presidente a governar quatro vezes seguidas. As pessoas adoravam-no, apesar de ter passado a maior parte do mandato em cadeira de rodas, paralisado pela poliomielite — a imprensa ajudou a esconder isso do público para que a América não parecesse fraca. Foi ele que conduziu os EUA pela Segunda Guerra Mundial. A América entrou depois de aviões japoneses terem atacado sem aviso a frota americana no porto de Pearl Harbor, no Havai, a 7 de dezembro de 1941. A América mobilizou toda a sua indústria e, juntamente com o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o ditador soviético Josef Estaline, derrotou Adolf Hitler. A guerra no Pacífico foi terminada pelos EUA em agosto de 1945, ao lançarem duas bombas atómicas recém-desenvolvidas sobre as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui.
Capítulo 10: A Guerra Fria e a corrida à Lua
Depois da Segunda Guerra Mundial o mundo dividiu-se em dois campos. De um lado os EUA democráticos, do outro a União Soviética comunista. Começou a Guerra Fria. Chamava-se fria porque as duas superpotências nunca combateram diretamente uma contra a outra (com armas atómicas isso teria significado o fim do mundo), mas competiam sem parar por quem tinha mais foguetões, melhores espiões e sobretudo — quem conquistaria o espaço primeiro.
Esta corrida ao espaço começou melhor para os soviéticos. Em 1957 lançaram o primeiro satélite artificial, o Sputnik (só apitava, mas os americanos entraram em pânico), e em 1961 mandaram lá acima o primeiro ser humano, Yuri Gagarin. O presidente John F. Kennedy proclamou então um objetivo ambicioso: «Antes do fim desta década levaremos um homem à Lua e trá-lo-emos de volta em segurança!» Toda a gente achou que tinha enlouquecido, porque nessa altura os EUA não tinham sequer um foguetão decente.
Mas a NASA meteu mãos à obra. A 20 de julho de 1969 milhões de pessoas acompanharam em televisores a preto e branco, por todo o mundo, o módulo de descida da Apollo 11 a pousar na superfície da Lua, no Mar da Tranquilidade. Neil Armstrong saiu, desceu a escada e foi o primeiro ser humano da história a deixar a marca da bota no pó lunar. Ao fazê-lo pronunciou a frase que o mundo inteiro recorda: «É um pequeno passo para o homem, mas um salto gigante para a humanidade.» Com Buzz Aldrin espetou lá uma bandeira americana (reforçada com arame para pender no vácuo) e recolheu um saco de rochas lunares. Com isto os americanos ganharam definitivamente a corrida ao espaço.
Capítulo 11: Tenho um sonho, ou a luta pelos direitos civis
Enquanto a América brilhava no espaço, em casa continuava a ter uma nódoa profunda e injusta. Embora a escravatura tivesse acabado logo em 1865, as pessoas negras em muitos estados (sobretudo no Sul) continuavam sem ter os mesmos direitos que as brancas. Vigoravam lá as leis da segregação. Isso significava que as pessoas negras não podiam frequentar as mesmas escolas, restaurantes, hotéis nem casas de banho públicas, e nos autocarros tinham de se sentar só atrás. Se os lugares da frente, reservados aos brancos, estivessem cheios, uma pessoa negra tinha de se levantar e ceder o lugar.
Tudo começou a mudar em 1955 em Montgomery, no Alabama. Uma costureira chamada Rosa Parks sentou-se num autocarro ao fim de um longo dia de trabalho. Quando o motorista lhe pediu que se levantasse e desse o lugar a um passageiro branco, ela disse calmamente: «Não.» A polícia prendeu-a por isso. Aquele ato aparentemente pequeno desencadeou protestos enormes. A população negra de Montgomery começou a boicotar os autocarros: durante um ano preferiu andar a pé a pagar a uma empresa que a tratava como lixo. A transportadora ficou à beira da falência e as regras tiveram de mudar.
À frente deste movimento pelos direitos civis pôs-se um jovem pregador, Martin Luther King Jr. King admirava o líder indiano Gandhi e defendia o princípio de que a injustiça se combate sem violência — com manifestações, boicotes e discursos. Em 1963 liderou uma marcha enorme sobre Washington, onde proferiu perante 250 000 pessoas o seu discurso mais famoso, que começa com as palavras «I have a dream…» (Tenho um sonho…). Sonhava que os seus quatro filhos pequenos viveriam um dia num país onde não seriam julgados pela cor da pele, mas pelo seu caráter. King recebeu o Prémio Nobel da Paz pela sua luta mas, tal como Lincoln, teve um fim trágico: em 1968 um atirador matou-o em Memphis. Ainda assim o seu sonho cumpriu-se: as leis mudaram, a segregação foi abolida e em 2008 os americanos elegeram Barack Obama como o seu primeiro presidente negro.
Capítulo 12: Bem-vindo à era digital
Nas últimas décadas do século XX a América tornou-se o centro de uma revolução tecnológica. Num vale da Califórnia a que hoje se chama Silicon Valley, uns rapazes começaram a montar em garagens coisas que mudaram por completo a maneira como hoje vives, aprendes e te divertes.
Steve Jobs, com o amigo Steve Wozniak, montou o primeiro computador Apple na garagem dos pais de Jobs. Um pouco mais adiante, Bill Gates construía a Microsoft. E no fim dos anos noventa dois estudantes da Universidade de Stanford, Larry Page e Sergey Brin, inventaram o motor de busca sem o qual hoje não encontravas sequer uma receita de panquecas — o Google. Em suma, a América deu ao mundo os computadores pessoais, a internet, os telemóveis inteligentes, as redes sociais e o streaming.
Hoje os Estados Unidos são um país cheio de contradições. Têm uma Hollywood enorme de onde vêm os teus filmes e super-heróis preferidos, têm astronautas a planear uma viagem a Marte e ao mesmo tempo debatem-se com montes de problemas modernos. De treze colónias pequenas e pobres que temiam um rei zangado em Londres, os EUA percorreram um caminho inacreditável, por vezes sangrento e por vezes bastante maluco. E é tudo da nossa história dos EUA — agora já sabes como nasceu o mundo de hoje!
Um pequeno quiz para acabar
Achas que estiveste com atenção? Põe as tuas células históricas à prova neste quiz rápido. As respostas certas estão logo por baixo, mas não espreites!
1. Que ave elogiou Benjamin Franklin à custa da águia?
a) O ganso-bravo — b) O peru — c) O pombo
2. Onde guardava o presidente Abraham Lincoln documentos e cartas importantes?
a) Numa gaveta secreta da bota — b) Na sua cartola alta — c) Debaixo da almofada
3. O que aconteceu durante a famosa Boston Tea Party?
a) Os americanos convidaram o rei britânico para o chá das cinco. — b) Habitantes de Boston disfarçados de índios atiraram caixotes de chá ao mar. — c) Em Boston inventou-se o chá gelado.
4. Que inventor famoso chegou a experimentar a barba do assistente na sua lâmpada?
a) Henry Ford — b) Albert Einstein — c) Thomas Alva Edison
5. Como se chamava o navio em que os Peregrinos chegaram à América em 1620?
a) Titanic — b) Mayflower — c) Santa Maria
Respostas: 1b (sim, o peru), 2b (o chapéu dele era mesmo um arquivador ambulante), 3b (os peixes tiveram nesse dia a sua dose de cafeína), 4c (Edison experimentou mesmo tudo), 5b (Mayflower).