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🏺 Herculano: de Hércules à inteligência artificial

Uma cidade com nome de herói, soterrada numa única noite, descoberta por causa de um poço e lida por uma inteligência artificial: Herculano em quatro minutos de leitura.

Pompeia ficou com a fama; Herculano ficou com tudo o resto. Era mais pequena, com uns quatro a cinco mil habitantes, e mais rica. E como o Vesúvio a soterrou de maneira diferente de Pompeia, aqui conservou-se o que noutros sítios ardeu ou apodreceu: portas de madeira, camas, telhados, andares de cima, até comida. Esta é a sua história, de Hércules à inteligência artificial.

Uma cidade com um herói no nome

Segundo uma lenda registada pelo historiador grego Dionísio de Halicarnasso, a cidade foi fundada pelo próprio Héracles, Hércules para os romanos, quando regressava da Hispânia depois de um dos seus doze trabalhos. Daí o nome.

A realidade é menos heroica e mais movimentada. Segundo o geógrafo Estrabão, por aqui passaram oscos, etruscos e pelasgos e, no século IV antes da nossa era, os samnitas. Depois chegou Roma. Na Guerra Social, Herculano ficou contra Roma e perdeu. Em 89 antes da nossa era tornou-se município romano e os seus homens receberam a cidadania romana.

A pequena cidade à beira-mar transformou-se em estância de veraneio. Os romanos ricos construíam aqui vilas com vista para a baía. A maior, a Vila dos Papiros, pertenceu provavelmente a Pisão, o sogro de César.

Um aviso que ninguém percebeu

Em fevereiro do ano 62, ou 63 segundo algumas fontes, um forte sismo abalou a Campânia. Pompeia sofreu danos graves; Herculano, menos. O filósofo Séneca dedicou-lhe uma parte inteira das suas Questões Naturais. Ninguém se lembrou de o relacionar com o monte coberto de vinhas por cima da cidade. Dezassete anos depois, todos o fizeram.

O dia em que o vento soprou a favor, e a noite em que isso não chegou

No ano 79 o Vesúvio abriu-se. A data tradicional é 24 de agosto, mas descobertas mais recentes apontam antes para o outono. Uma coluna de cinza e pedra-pomes subiu ao céu e o vento empurrou-a para sudeste, sobre Pompeia. Herculano, do lado oeste do vulcão, ao início recebeu só um pouco de cinza. Graças a isso, muita gente conseguiu fugir.

Quem ficou desceu à praia durante a noite e esperou por barcos. De Miseno, onde estava a frota romana, o seu comandante, Plínio, o Velho, fez-se ao mar para salvar as pessoas à volta do golfo. Ele próprio morreu perto de Estábia. O sobrinho, Plínio, o Jovem, então com dezassete anos, contou tudo em duas cartas ao historiador Tácito. São o primeiro relato pormenorizado de uma erupção vulcânica da história.

Depois, desceram a encosta sobre Herculano as escoadas piroclásticas: avalanches de gás incandescente, cinza e rocha. Vieram várias, umas atrás das outras, e deixaram cerca de vinte metros de material que endureceu quase como pedra. A cidade desapareceu debaixo da terra. E como as escoadas a enterraram depressa e sem ar, a madeira não apodreceu: carbonizou e manteve a forma.

Mil e seiscentos anos de silêncio e um poço

Por cima de Herculano cresceu uma nova vila chamada Resina. Ninguém sabia o que tinha debaixo dos pés.

Só em 1709 é que uns poceiros deram com mármore. O príncipe d'Elbeuf mandou abrir galerias a partir do fundo do poço para tirar estátuas. Não fazia ideia de que tinha ido parar mesmo ao meio de um teatro antigo. A partir de 1738, por ordem do rei Carlos de Bourbon de Nápoles, escavou aqui o engenheiro militar Alcubierre, ainda em túneis, como numa mina, à procura sobretudo de estátuas e frescos para as coleções reais. O famoso estudioso da Antiguidade Winckelmann escreveu que Alcubierre percebia tanto de antiguidades como a lua de lagostins.

Em 1750 os túneis chegaram à Vila dos Papiros. Entre 1752 e 1754 encontraram-se ali cerca de 1800 pedaços de rolos carbonizados: a única biblioteca que sobreviveu da Antiguidade. A partir da década de 1750, o padre Antonio Piaggio foi-os desenrolando numa máquina inventada por ele, milímetro a milímetro. Muitos rolos desfizeram-se pelo caminho.

Escavar a céu aberto

A verdadeira arqueologia só começou em 1927. Amedeo Maiuri pôs-se a destapar a cidade de cima para baixo, rua a rua, e dirigiu os trabalhos durante mais de trinta anos. Herculano tornou-se uma cidade por onde se pode passear.

Mas havia uma coisa que não batia certo. Nas ruas só se tinham encontrado meia dúzia de mortos, por isso julgava-se que os habitantes tinham escapado. Nos anos 80 os arqueólogos chegaram finalmente à praia antiga. Nas câmaras abobadadas junto ao mar e na areia estavam os restos de cerca de trezentas pessoas. Mulheres e crianças nas câmaras, homens cá fora. Esperavam um socorro que nunca chegou. Ali perto estava um barco de madeira virado ao contrário.

Em 1997 Herculano entrou, com Pompeia, na lista do Património Mundial da UNESCO. Desde 2001 o Herculaneum Conservation Project, financiado pela fundação norte-americana Packard Humanities Institute, ajuda o Estado italiano a cuidar das escavações. Desde junho de 2024 pode-se até descer à praia antiga.

A biblioteca que falou

Os rolos da Vila dos Papiros parecem toros queimados, e a maioria nunca ninguém a conseguiu abrir. Por isso, em 2023, nasceu o Vesuvius Challenge: os rolos foram digitalizados com raios X e uma inteligência artificial procurou neles vestígios de tinta. Em fevereiro de 2024 o grande prémio foi para três estudantes que tinham lido mais de 2000 caracteres de um rolo ainda fechado. O texto falava do prazer e de saber se a comida é melhor quando é escassa. Em 2025 conseguiu-se também, pela primeira vez, ler o título de um rolo: Filodemo, Sobre os vícios.

Dois mil anos depois da erupção, Herculano continua a falar. Basta dar-lhe um pouco de tempo e muito poder de cálculo.

O que fixar

- Hércules deu nome à cidade, pelo menos segundo a lenda. - 79: um dia de cinza sobre Pompeia, uma noite de avalanches sobre Herculano, vinte metros por cima da cidade. - 1709: um poço, algum mármore e, por acaso, um teatro inteiro. - 1969: Resina passou a chamar-se Ercolano para que os turistas percebessem finalmente que Herculano ficava ali, em vez de seguirem diretos para Pompeia. - 2024: uma inteligência artificial leu as primeiras linhas de um rolo que ninguém abria desde a erupção.